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Mia Amaral Gomes

"El dolce far niente"

Mia Amaral Gomes

"El dolce far niente"

Qui | 30.03.17

Meu querido avô 👴🏽❤

Mia

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Meu querido avô,

Ainda te lembras de mim? Consegues ainda lembrar-te da minha voz? Do meu riso? Eu lembro-me de ti, quanto à tua voz, ouço-a com pouca nitidez muito lá ao fundo, mas não me esqueço do teu sorriso.

Lembras-me os pés na areia da Costa Nova, os banhos de sal, lembras-me as regueifas, os teus calções de banho às riscas verdes. Lembras-me os cigarros que fumo sentada na varanda com a mão no corrimão, lembras-me a tua perna já fraca posta de lado para não te doer, lembras-me a forma desajeitada como subias as escadas, lembras-me o almoço de sábado e de domingo (sobre eles, continuo a sentar-me no teu lugar como fazia quando ias almoçar com os teus amigos).

Lembras-me a ilha do Funchal, o carro sujo e desarrumado, os jornais desportivos, as vezes que fomos buscar a avó ao trabalho... Lembras-me sobretudo a saudade! Lembras-me o teu mau feitio, a forma fácil como resmordias quando alguma coisa te incomodava, lembras-me o teu último olhar e todos os outros que partilhamos.

Lembras-me as tuas mãos entrelaçadas nas minhas, as manhãs ensonadas só para te medir o índice de glicémia. Em cada garrafa de espumante que abro, lá estás tu no meu ouvido a dizer como se tira a rolha para a garrafa não partir.

E os chocolates? Lembras-te? Nunca conheci, em vinte e três anos de vida, alguém com as mãos tão leves e surrateiras para tirar os bombons às escondidas.

Lembras-me o sporting, o leão enorme que punhas em cima do carro! Mas depois eu sinto falta... das pequenas coisas que me dizias, "então filha, já és enfermeira?", "vieste ontem?" , "foste sair este fim de semana?" , "bebes uma pinguita hoje ao almoço?" , "tens um cigarro para mim?" que malandro que eras quando mos pedias só para me deixares embaraçada.

Aaaah a Páscoa, quase que me esquecia, lembras-me o beijar a cruz (sobre esta que se avizinha não sei se estou preparada).

Meu querido avô, as saudades que eu tenho tuas são tão grandes, magoam-me tanto, ficam aqui presas! Ainda apareces nos meus sonhos, ainda falo contigo, ainda te amo e sobre isto, quero que saibas que te vou amar sempre.

Olha... vais andar comigo quando caminhar pelos corredores dos hospitais? Vais acompanhar-me nos momentos mais dolorosos? Vais estar lá para me mandares aquele sinal de que vai ficar tudo bem? Vais? Podes fazer isso por mim?

As grandes árvores morrem de pé, como os grandes avôs.

 

Um beijo do tamanho do mundo!

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