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Mia Amaral Gomes

"El dolce far niente"

Mia Amaral Gomes

"El dolce far niente"

Sab | 14.03.20

A todos os enfermeiros do meu país 👩🏽‍⚕️

Mia

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Queridos colegas, amigos e professores,

Hoje encontro-me em contenção/quarentena, o que lhe quiserem chamar. Encontro-me neste estado de inatividade pelo meu país porque considero mais importante ficar em casa, do que estar na esplanada do café do meu bairro, da minha terra, da minha cidade (ainda que em casa não tenha armas suficientes para me defender). Escolhi ficar em casa a pensar na minha mãe, no meu pai, nos meus irmãos, na minha avó, no meu sobrinho e nos meus amigos, escolhi ficar em casa porque também pensei em mim. 

Pensei na quantidade de pessoas que respirou o mesmo ar que eu, nas pessoas a quem apertei a mão, a quem beijei a face, a quem abracei e depois de muito pensar, cheguei à conclusão que bastava apenas um de nós estar doente para uma quantidade infindável de pessoas ficar também. 

Queridos colegas, não tenho palavras para vos agradecer a nobreza, coragem, bondade e amor à camisola, não tenho palavras e nunca terei para vos agradecer o simples facto de estarem de pé na linha da frente. E escrevo-vos isto hoje, porque me revolta que só agora o povo português olhe para a nossa classe e nos chame de "heróis". Foi preciso ser declarada uma pandemia para gerar uma onda de amor aos profissionais de saúde, foi preciso as pessoas ficarem em casa para quererem aplaudir de pé o nosso trabalho. Foi preciso o medo instalar-se no coração de cada português, para que cada um deles olhasse para nós com olhos de ver. 

Hoje, ninguém ousa chamar-nos egoístas, assassinos. Ninguém ousa apontar-nos o dedo para nos dizer que não temos direito a pedir melhores condições e salários. Hoje ninguém tem pujança para nos dizer que somos uma merda. 

Neste tempo que corre, somos postos nas bocas do povo como os gloriosos, aqueles que amam a sua pátria e defendem a sua nação pelos cuidados, hoje somos pessoas dignas, pessoas de amor, pessoas de valor. 

E não deveriamos ter sido encarados sempre assim? Nós enfermeiros e estudantes de enfermagem não deveríamos ter sido sempre aclamados de vitoriosos? Não devíamos ter tido sempre o respeito das outras gentes? Eu acho que sim... Talvez por eu ainda ser uma estudante e por saber que amo a minha profissão acima de qualquer coisa, se eu pudesse escolher eu estava do vosso lado, na mesma luta que cada um de vocês, porque foi esta a vida que eu escolhi. 

Queridos colegas e amigos, vocês foram a familia que eu achei certo escolher, e por muito que a voz me doa eu vou saber sempre que o meu lugar é desse lado a lutar por causas justas. 

Depois desta tempestade passar, eu espero que o povo lusitano ainda se lembre dos elogios que nos teceu e que não se calem essas vozes que nos estão a enaltecer neste momento. Desejo de forma profunda que sejamos enaltecidos o resto das nossas vidas, porque nós somos o coração da saúde. 

Aos meus colegas e amigos, desejo-vos a força de mil homens para o que há-de vir, desejo-vos a sabedoria, a perspicácia e a paz de espirito por dever cumprido, desejo que regressem às vossas casas e que nelas encontrem um ambiente de amor para se deitarem e rejenuvenescerem. 

A todos vocês, obrigada, muito obrigada! 

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